A biodiversidade do intertidal rochoso
Nesta época de Verão as praias enchem-se de banhistas e veraneantes, todos desejosos de ocupar um lugar ao sol e gozar o merecido descanso, aproveitando o clima generoso, exclusivo desta época do ano.
| Os mais curiosos pela vida marinha já terão notado, em praias com algum substrato rochoso, na quantidade de vida deixada a descoberto pela maré vazia. Neste tipo de praias, na zona intertidal, quando o mar recua na baixa-mar, ficam rochas, poças e lagos com uma imensa variedade de seres vivos. É algo que me fascina desde os meus primeiros anos de vida e é provavelmente este contacto desde a minha infância que me tornou num entusiasta da aquariofilia. |
A costa da região Oeste portuguesa é particularmente rica em biodiversidade marinha na zona intertidal. É possível observar muitas espécies de macroalgas castanhas (Phaeophyceae), vermelhas (Rhodophyceae) e verdes (Chlorophyceae), nomeadamente Saccharina latissima (antes denominada Laminaria saccharina), Fucus serratus, Codium sp., Sargassum sp., Ulva sp., Valonia sp., Bifurcaria bifurcata, Padina pavonica, etc.

Já no que respeita a animais, há uma vasta quantidade de invertebrados, como mexilhões, lapas, cracas, ouriços, estrelas-do-mar, gastrópodes, crustáceos (várias espécies de camarões, caranguejos e anfípodes, entre outros), polvos, anémonas (Anemonia sulcata e Actinia equina), nudibrânquios, poliquetas, etc. Nos peixes encontramos uma forte predominância de indivíduos de espécies da família Blenidae, vulgarmente denominados de "cabozes". Também é possível observar peixes das famílias Gobidae, Sparidae, Clupeidae, Carangidae, Moronidae, Gadidae, etc., predominantemente exemplares juvenis. O subtidal rochoso é uma área extremamente importante de berçário para várias espécies de peixes comercialmente relevantes. Apesar das acentuadas flutuações de temperatura entre as marés e da dessecação provocada pela exposição a seco durante a maré baixa, o intertidal é uma zona muito produtiva e de elevada biodiversidade.



A costa da região Oeste funciona como uma zona fronteira entre um clima temperado da região Norte e um clima temperado da região Sul, tendo este aqui o seu limite Norte e reunindo espécies também presentes na região Algarvia e mediterrânica. Esta convergência de espécies de águas de diferentes temperaturas concedem a estes locais uma riqueza marinha significativa. O elevado hidrodinamismo costeiro destas águas, devido à ondulação resultante dos ventos do quadrante N/NE, faz com que os locais rochosos sejam verdadeiros oásis de vida, onde muitas espécies se concentram, abrigando-se e fixando-se nestes locais para não serem arrastados pela violência das ondas.
A minha passagem por estes locais é realizada todos os Verões, dedicando uma observação cuidada aos seres vivos ali existentes. Habitualmente perco a noção do tempo a passar, tal é o entretenimento e prazer que obtenho destes momentos.
No passado mês de Agosto, lá fiz as minhas caminhadas sobre as extensas rochas e poças na maré vazia. Contudo, desta vez fiquei profundamente admirado com a intensidade e diversidade de vida. Sem partir de qualquer base científica e limitando-me apenas à observação pessoal, posso afirmar que a diversidade e quantidade de macroalgas era bastante superior aos anos anteriores, espécies das mais variadas cores e formas, apresentando-se em extensas populações, algumas misturadas com outras espécies. A concentração era de tal forma elevada que a superfície da água, nestas poças, cobria-se de pequenas bolhas em resultado do oxigénio libertado pelas algas. Claramente as populações de herbívoros são insuficientes para lidar com tamanha quantidade de algas, apesar destes também estarem presentes, fundamentalmente lapas (Patella vulgata) e várias espécies de gastrópodes.
O que mais me fascinou foi a vasta quantidade de peixes que nunca tinha observado nestes locais. Os blenídeos lá estavam nos seus locais habituais. Algumas poças, fundamentalmente as frequentadas por ouriços-do-mar, apresentavam uma invulgar quantidade de cabozes. Ao aproximar-me, todos se apressavam para se esconder a um ritmo frenético. Em poças com menos de 1 m2 viam-se muitas dezenas de cabozes a movimentar-se muito rapidamente para os seus esconderijos e lá ficavam a observar. É de notar que algumas das espécies de blenídeos observadas possuíam cores fortes e não são muito vulgares nesta zona. Em poças maiores era fantástico ver grandes cardumes de sargos e outros esparídeos, juntamente com cardumes de pequenos juvenis de, possivelmente, sardinha, carapau, robalo, fanecas, etc.. Nuvens de pequenas listras brilhantes deslocavam-se por estas poças. Milhares de peixes que encantariam qualquer aquariofilista e fariam imediatamente imaginar a montagem de um aquário marinho costeiro. É raro observar tanta quantidade de pequenos peixes em poças do intertidal. Crianças e adultos maravilhavam-se e alguns apanhavam mesmo alguns seres vivos, em muitos casos não tendo o cuidado de os devolver à água. Enfim... a falta de sensibilidade, fundamentalmente dos adultos que deveriam educar os mais novos (como em muitos outros aspectos da vida...).




Qual a origem de tamanha abundância? Não é possível tirar conclusões sem um rigoroso trabalho científico. Apenas poderei especular um pouco, basendo-me no que vi. A grande quantidade de macroalgas poderá ter origem no aumento de nutrientes e maior disponibilização de CO2 nas águas costeiras. Quanto à invulgar quantidade de espécies de peixes juvenis, será possivelmente consequência das temperaturas de água um pouco mais elevadas que se registaram no início de Julho em toda a costa litoral portuguesa. Durante cerca de 2 semanas, a temperatura da água rondou os 20 ºC, pouco habitual nestas águas, o que terá facilitado o sucesso do desenvolvimento de embriões e larvas, beneficiando de uma maior disponibilidade de alimento planctónico. Como já referi, estou apenas a especular... Aceitam-se outras explicações.




No dia seguinte, peguei na minha câmera e fui aos mesmos locais para tentar obter registo do que vi. O dia já se apresentava nublado, o que dificultou a fotografia e filmagens.
Texto: João Cotter
Fonte: Editorial da bioaquaria ed. 16









